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Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia

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Coronavírus e as cargas contra estatais. Alguns elementos para um panorama de contágio

Atualizado: 12 de jan. de 2023

Gil Vicente N. Lourenção
Doutor em Antropologia
GEICT-Unicamp
gilvicente@ufscar.br 

Levando-se em consideração o espalhamento do corona vírus – SARS-CoV-2/Covid-19 – para o mundo, tomando-se por referencia o plano de inicio na China e a posterior propagação via caminhos e contêineres de mercadorias produzidas por aquele país, as polaridades e o caráter de crise contra capital e contra estatal aparece como um dos principais corolários – aproveitando a afinidade entre a palavra corona e a palavra latina corolário.

As economias, investidores, ricaços do mundo e mandantes dos sistemas políticos ao redor dele estão em polvorosa, projetando perdas de lucros, crises e recessões de mercados e longos processos de recuperação que, de acordo com algumas visões otimistas, demandará de um a dois anos. As pessimistas, uma década. Decorrem três coisas interessantes dessa leitura: a primeira a respeito do peso e relevância da produção industrial chinesa, e a construção de um sistema de exploração que pode estar chegando a um ponto de inflexão que demanda transformação. A segunda, sobre o impacto da parada de circulação de mercadorias, bens e serviços, indicando que um sistema construído em clusters ao redor do mundo seria muito mais adequado do que o que vemos nos termos chineses; e a terceira, a respeito desse animismo capitalista, a saber, de tratar o mercado, os capitais, as bolsas de valores e as coisas a elas relacionadas como coisas vivas – e daí a tese correlata que diz que apenas e tão-somente a ‘economia’ importa, esse grande moedor de carnes e sonhos – e todas essas coisas que a fazem tão bem funcionar, com suas libras de carne, suas engrenagens e pacotes de big data finamente ajustados.

Walter Molino, 1962

Em todo o caso, há gente que vem assistindo a essas coisas com certo interesse que beira a um bem-estar-a-civilizatório. O que quer dizer considerar como um mal necessário ou ao menos como uma boa coisa para certos viventes neste planeta. E não foram poucos. Tivemos menos emissões de gases na China, algumas melhorias ambientais pontuais, menos consumo, menos movimentação de bens e pessoas. Até mesmo menos impactos sísmicos.  Consequentemente isso pode se visto como algo até positivo, pensando em que vivemos em um mundo finito sendo consumido pelas movimentações de pessoas, gases, mercadorias, serviços, dinheiro e capitais, e mais recentemente cargas virais perigosas, que fazem par com as congêneres mercadorias.

De forma similar, as publicações e movimentos de cientistas recentemente vêm tentando controlar as narrativas em torno da aparição do vírus e das modalidades de contágio, e das tentativas de controle das informações e de suas reflexões e propriamente da reinserção das narrativas em trilhos de controle correntes.  Em que pesem as discussões  – dos trendings do twitter à alguns meios de produção de fakes news das ‘direitas’ – que buscam colocar a aparição do vírus como algo em parte contra a cultura cristã ocidental ou então como uma realidade de guerra produzida pelos comunistas chineses visando acabar com as economias capitalistas, por mais absurda que possa parecer tal explicação. E em outros meios, na pressa de classificar as pessoas que consomem animais silvestres como mais próximos da natureza, e por ‘natureza’ incontroláveis – em suas potências virais, suas possibilidades imprevisíveis, suas coisas e semioticidades e elementos microscópicos, dos quais o próprio microscópio e o PCR igualmente fazem par em alguma realidade paralela.

Especificamente sobre meu caso, venho sendo bombardeado – inclusive pela minha situação de pesquisa no meio do caminho entre o ‘ocidente’ cristão e o Japão xintoísta, passando pela china comunista-mais-que-capitalista, no exemplo mais-que-perfeito da exploração finamente ajustada do homem pelo capital. No caso, de certa visão de algumas pessoas a respeito de particularidades da alimentação que se vê por esse centro [porque esquerda e direita, assim como ocidente e oriente em parte se devem a pontos e referências que devem considerar a posição do sujeito que fala, e desse jeito estou bem próximo do centro, tanto que no mapa japonês o Japão se encontra no centro do mapa/mundo, obviamente. E igualmente o valor do que se fala, mas essa é uma coisa complicada para explicar aqui.

Arquivo pessoal

E que se diga, a China no Japão é chamada de país do Centro – 中国 . Nome bastante sugestivo e exato no momento presente. Centro para onde o mundo todo olha nestes dias. Ora, há lugares dos quais a China possui uma posição exemplar que se comem coisas bastante inusitadas. Há séculos. Mas daí a se acreditar – e creditar – o mal do século à sopa de morcegos de Wuhan, vai-se um grande passo. Sem contar a ‘sopa de morcegos’ para o ocidente cristão, quase um anti-cristo em forma de prato para consumo nos mercados locais…

No entanto, o que isso vem apontando é a verdade da narrativa da ciência suportada pela linha racista que a ela faz par, apontando com isso que de fato a narrativa da aparição do vírus a partir do morcego ou do pangolin – e de sua natureza é em si a verdade. De ciência. Em paralelo a isso, soçobram posicionamentos racistas em vários veículos ao redor do mundo. Contra todos próximos ao ‘centro’ igualmente. Veja os casos de ataques a cidadãos descendentes de japoneses, coreanos, chineses na Europa e nos EUA. Veja as discussões dos doutores do facebook. Sobre as velocidades – e a reflexão necessária antes de se liberar os argumentos – se é possível de ser colocada, além de outras velocidades de operação diversa. Argumentos de natureza, naturezas de argumento de raça, de produção, de ontologias vêm sendo produzidas ou requentadas a uma velocidade surpreendente.

Sobre as coisas que vem acompanhadas dos controles das narrativas – suas dimensões raciais, hierárquicas, meios de cientistas tentando controlar as narrativas  – e aquela conversa sobre deslocar os centros de produção de verdades científicas? – tudo o que parece estar acontecendo, do Bruno Latour com a quaresma e sua leitura cristã dos fatos de ciência, ou da ciência dos fatos não importa, dos autores da sopa de Wuhan, dos centros de cientistas e das lives no facebook, de youtubers os milhares e outros muitos está em gerar uma dada arqueologia do corona como um vírus racial [ou alguém tem duvida quando um Trump ou quando seu desprezível simulacro brasileiro brada a todas as mídias que a China é a culpada do mal do século, que se trata do ‘vírus chinês’, contra-mercado, contra-humano, contra-capital, contra-cristão-protestante e contra sua lógica bizantina do trabalho, e contra o qual deve-se fazer guerra. Porque o trabalho escravo chinês é superior em produção à lógica do trabalho protestante, e o resultado não se dá no além vida – sequer cogita importar em qualquer caso no além vida. No máximo se morre provavelmente pior do que quando se entrou nesse mundo, dentro de um quarto compartilhado por uma dezena de pessoas em situação tão ou mais precária.  

Da guerra. Ou a forma estatal de lidar com o problema das pessoas como coisas. Das pequenas, insignificantes, às grandes – exércitos, estados nacionais e cargas virais. Sem entrar no mérito igualmente de pensar a relevância de uma metáfora milico-estado-nação para o coronavírus, visto que combater um inimigo que é desigual em tudo [de escala, de espécie, de ‘natureza’] não sei se cabe como boa metáfora. Mas não se trata apenas de valoração da metáfora em sua relação com o referente, mas sim de uma posição estatal de enfrentamento – a única de fato a merecer o pronome estatal. O estado faz guerra, diriam os estadistas assim como os cientistas. A política da ciência é a ciência da política. A verdadeira máquina do estado é a guerra. E é a única instituição do estado a não estar limitada pelo próprio estado, como os sistemas de saúde o são. Estados de guerra, orçamentos de guerra. Fluxos de capitais para outras concentrações capitalistas.

Enfim, sobre o vírus, é interessante o que foi lembrado recentemente pelo Slavoj Žižek como a técnica de cinco pontos da Beatrix kiddo – do filme Kill Bill – ou como um golpe no capitalismo mundial. Lembremos que tal técnica faz parte de um dado aspecto mitológico das artes marciais, especificamente no qual após a Beatrix golpear o Bill com essa técnica, ele volta e conversa tranquilamente com ela, relembrando algumas passagens de sua vida pregressa, quando então dela se despede, levanta-se calmamente, passando a andar cinco passos quando então seu coração explode e ele vem graciosamente a cair no chão, desfalecido. É uma metáfora bem interessante, uma vez que um vírus é um golpe de X pontos no capitalismo mundial, dando tempo para algumas ações pontuais antes que exploda o seu coração. Resta saber onde é o coração do capitalismo e onde lançar a carga, tal qual as técnicas de cerco a fortificações com varíola, na idade média europeia. Mas menos, ainda bem menos do que um ‘golpe no capitalismo’. O que parece surgir, na verdade, é o gerenciamento das populações através de outro regime, orientado pelo vírus. E isso sim é um golpe, dentro do golpe, dentro do golpe – uma técnica de X pontos de exploração política da lógica viral.

Abstração a parte, no momento tendemos a pensar a situação a partir de duas partes – uma contra certa leitura que vê que só é possível sair disso a partir de uma ampliação da solidariedade, e outra diferencial, a partir do contágio. Sobre a primeira, tendemos a ver que a resposta embasada na solidariedade social é algo que beira ao impossível fora da escolástica cristã. A contar da história europeia – os surtos de contágio e infecção que lá ocorreram, os mais antigos como a peste negra, a gripe espanhola, e os mais recentes na Africa e Asia, como o Ebola e o SARS – e vendo a situação e interação humanas no Equador em decorrência do corona – se é que os vídeos que chegaram a mim realmente foram tomados lá – com pessoas caindo mortas nas ruas, gente cremando seus mortos nas frentes das casas; as estatísticas sobre a pandemia, as imagens, as conversas, as noticias, a ciência feita e descrita. A partir disso, ouso dizer que podemos apenas contar com nós mesmos. A solidão da morte involuntária. O duplo solitário. Solidão nas quarentenas – para aqueles que podem se dar ao luxo disso – e a solidão da pandemia quando se é infectado. E o consequente abandono é o que nos sobra do latifúndio capitalista. Mas isso pode ser bom. Em parte. Seria melhor assim do que ser dirigido pela política do vírus.

Sobre o contágio. Talvez o que mais precisaríamos agora seria o contágio contra hierárquico, contra estatal, contra guerra, a saber, que o fim do mundo tal qual ele esteve construído, na esteira do capital financeiro – do qual fazem par tanto as democracias quando os outros regimes políticos – poderia bem chegar ao fim. Mas como tal, a ciência tal qual a conhecemos também chegará ao fim, apesar de todo o trabalho que vem sendo feito pelos cientistas no estudo, controle, ensino, pesquisa e, por que não, enfrentamento. E isso pode bem ser para algum bem. Resta saber como essas duas coisas – a solidão e o contágio – vão se ajustar no tempo futuro contra o agenciamento e o gerenciamento político/científico das populações pelo regime do[s] vírus.

Bruno Latour, 2020: Isso é um ensaio geral? Referencia

Giorgio Agamben, Slavoj Zizek, Jean Luc Nancy, Franco “Bifo” Berardi, Santiago López Petit, Judith Butler, Alain Badiou, David Harvey, Byung-Chul Han, Raúl Zibechi, María Galindo, Markus Gabriel, Gustavo Yañez González, Patricia Manrique y Paul B. Preciado, 2020: Sopa de Wuhan. Editorial: ASPO (Aislamiento Social Preventivo y Obligatorio) 188 páginas, 1.a edición: marzo 2020.

Coronavirus COVID-19 Global cases by the Center for Systems Science and Engineering CSSE at Johns Hopkins University. Referencia

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