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Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia

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COVID-19 e as imunidades dos sistemas flexíveis

Atualizado: 12 de jan. de 2023

Marco Antônio Gavério

Cientista Social pela UFSCar, mestre e doutorando pelo programa de pós-graduação em sociologia da mesma universidade. É bolsista CAPES e membro do grupo de pesquisa SEXent – Sexualidade, corpo e entretenimento.

A antropóloga estadunidense Emily Martin, em seu livro Corpos Flexíveis (1994), discute de forma instigante como a dimensão do sistema imunológico humano se torna central para as definições contemporâneas de saúde no mundo ocidental. A partir das concepções de combate às doenças infectocontagiosas nos EUA dos anos 1940-1950, Martin demonstra como, ao longo dos anos 1980, a imunidade humana passou a ser considerada um complexo sistema biológico de defesa às ameaças a saúde física do organismo.

Devido a epidemia de poliomielite, ou paralisia infantil, no país norte americano ao longo dos anos 1940-1950, a noção da saúde física do indivíduo passava por uma concepção de batalha bem delimitada entre o interior e o exterior do corpo. Nesse sentido, a batalha era contra os germes, bactérias e vírus que poderiam adentrar no corpo humano caso toda uma série de condutas individuais e coletivas de cuidado e profilaxia com a higiene e alimentação não fossem realizadas. A pele, diz Martin, era considerada uma armadura protetora dessas ameaças microbianas. Em suma, o combate às doenças infectocontagiosas era feito do lado de fora do corpo do indivíduo.

Com a denominada epidemia da AIDS dos anos 1980 nos EUA, houve uma mutação da perspectiva sobre o centro de defesa orgânica do corpo humano perante uma doença, perante uma infecção transmissível. O centro de defesa passa para dentro do corpo com o desenvolvimento científico da ideia de sistema imunológico. Em outras palavras, é o sistema imunológico o responsável pela saúde do organismo; é esse complexo sistemático interno ao corpo humano que enfrenta e neutraliza as ameaças infecciosas externas aos indivíduos. De forma resumida, o sistema imunológico é uma rede porosa entre o organismo e o ambiente, e a saúde do indivíduo depende do funcionamento saudável desse mesmo sistema. Ou seja, é no interior do corpo que se conflagra a batalha do organismo para manter sua saúde e integridade.

Portanto, a noção de sistema imunológico saturou no conhecimento científico e nas produções midiáticas uma série de metáforas de guerra e policiais com relação aos entendimentos sobre como o corpo produz saúde e enfrenta a doença.

Com a recente e rápida emergência em níveis pandêmicos do COVID-19 também temos visto ser empregada toda uma série de metáforas de guerra para indicar as ações contra o vírus. Desde os discursos biomédicos, econômicos e governamentais até às especulações jornalísticas a imagem do vírus como um invasor, uma ameaça externa, um inimigo efetivamente mundial tem sido amplamente mobilizada para ilustrar os efeitos biopsicossociais da doença. Nesse sentido, é o sistema imunológico humano o “nosso front de guerra”[i] ou é o terreno em que se dá “a guerra em nós”[ii]. Em consonância a essas imagens, análises sócio econômicas apontam que a emergência do COVID-19 é “a primeira guerra realmente mundial”[iii] ou “o maior desafio mundial desde a segunda guerra”[iv]. Por sua vez, o governo brasileiro também tem explorado essas metáforas bélicas em que “o ministério da defesa reforça ações do governo federal na guerra contra o COVID-19”[v] e propõe um “‘orçamento de guerra’ [que] cria um regime extraordinário durante pandemia de COVID-19”[vi].

Ao mesmo tempo, considerações e clivagens passaram a surgir em múltiplas estâncias de difusão de informação sobre o vírus. Discussões sobre quais são os grupos de risco a doença, suas faixas etárias e quais comorbidades são mais facilmente acometidas pela infecção. Entretanto, por mais que essas clivagens sejam importantes no dimensionamento da disseminação da síndrome respiratória, o que ainda tem sido pouco compreendido é que o COVID-19 se transmuta em um problema não somente aos organismos individuais, mas também aos organismos públicos. Em outras palavras, mesmo que o COVID-19 afete mortalmente um relativo pequeno grupo de pessoas em risco, seu principal problema é a saturação dos sistemas públicos e coletivos de cuidado em saúde.

Quer dizer, como o COVID-19 possui uma rápida expansão infectocontagiosa em um curto período de tempo, um dos problemas principais postos às agências e organismos de saúde pública é como evitar que uma pandemia sobrecarregue e colapse os sistemas de saúdes nacionais. Além dos cuidados individuais para a manutenção da vida das pessoas infectadas, estejam elas nos grupos de maior risco ou não, uma ação sócio-política e tecno-cientifica precisa mirar de forma coordenada na mitigação da ascendência da propagação do vírus em uma pequena janela temporal. O objetivo dessa mitigação, o ‘achatamento da curva’, é para que os sistemas de saúde dos países tenham condição de atender adequadamente os indivíduos com suas demandas de cuidado específicas de acordo com suas próprias capacidades sociomateriais de acomodamento. Trocando em miúdos, a letalidade do vírus não é absoluta se os sistemas de saúde tiverem condições de cuidar dos infectados pelo COVID-19.

Portanto, a tarefa governamental que vem sendo cada vez mais adotada globalmente é a do ‘princípio da precaução’[1]. Isto é, o cuidado preditivo da saúde dos indivíduos no nível sócio coletivo para que a vigilância público-sanitária em forma de quarentena permita 1) a não propagação exponencial da doença e 2) a manutenção e expansão do próprio funcionamento dos sistemas públicos de saúde.

Voltando às ideias de Martin, podemos imaginar que, na atual pandemia do COVID-19, um jogo de contaminação tem se deslindado entre as noções de sistema imunológico e a consideração da “saúde” dos próprios sistemas de saúde pública. Segundo Martin, somos herdeiros de uma noção de sistema imunológico que tem como vetores as pesquisas biomédicas sobre o HIV nos anos 1980 e a mudança político-econômica global pós 1970 conhecida como especialização flexível (PIORE; SABEL, 1984). Resumindo muitíssimo o argumento de Emily Martin, a própria noção de sistema imunológico advém das considerações produzidas ao longo do século XX em torno dos chamados sistemas complexos. Sistemas complexos são aqueles que estão sobre constante busca de equilíbrio, nunca em equilíbrio propriamente dito. Essa constante busca por equilíbrio é devido a forma aberta que esses sistemas possuem e, por isso, estão continuamente expostos às mudanças ambientais. É característico desses sistemas complexos a transformação de sua sensibilidade às mudanças do mundo exterior em informações específicas que serão retroalimentadas e induzirão uma nova série de ações de acordo com as necessidades externas. Nesse sentido, Martin percebeu que essa figura dos sistemas complexos passou a dar inteligibilidade tanto a bio-imunologia dos organismos individuais quanto saturaram o discurso das corporações mercadológicas e governamentais ao longo da reestruturação produtiva do capitalismo global nos anos 1970 – também conhecida como reestruturação pós-fordista (MURRAY, 1990). Em poucas palavras, o sistema imunológico e o sistema capitalista são complexos na medida que são, fundamentalmente, flexíveis. E flexível quer dizer aberto a contingência e a constante mudança percebida e traduzida em forma de informação retroalimentável.

O que podemos estar presenciando é uma certa transferência da noção de sistema imunológico individual para uma consideração em que os próprios sistemas públicos de saúde possuem uma imunidade passível de colapso a qualquer momento. Nas atuais circunstâncias, em muitos países ocidentais, já não há mais garantias de que a pandemia será controlada e minimizada somente com ações individualizadas e sanitárias como se o vírus fosse estritamente uma ameaça externa. Ao mesmo tempo, os nossos sistemas imunológicos individuais não são garantia de segurança e bem estar biopsíquico enquanto estamos imersos em um ambiente em que a própria condição de saúde depende, fundamentalmente, dos espaços sócio-políticos de cuidado público.

Agora o que nos resta observar e analisar é como a flexibilidade imunológica do próprio complexo sistêmico capitalista pós-fordista conseguirá absorver e fagocitar as aparentes paralisias que o COVID-19 tem gerado em seus subsistemas. Será que veremos o colapso do sistema imunológico capitalista ou teremos, sob um limite tolerável de vidas perdidas e sistemas públicos destruídos, uma nova fase de vivacidade para o capital? Quem sobreviver, testemunhará.

Referências:

MARTIN, Emily. Flexible Bodies – Tracking Immunity in American Culture from the Days of Polio to the Age of AIDS. Boston: Beacon Press. 1994

PIORE Michael J; SABEL, Charles F. The Second Industrial Divide – Possibilities for Prosperity, pp. 165-220. New York: Basic Books, 1984

MURRAY, Robin. Fordism and Post-Fordism. In. HALL, Stuart; JACQUES, Martin (eds.). New Times – The Changing Face of Politics in the 1990’s. London, New York: Verso, 1990.

 

[1] ANDORNO, Roberto. “Principio de precaución”, Diccionario Latinoamericano de Bioética, J. C. Tealdi, coord., Bogotá, Unibiblos y Red Latino Americana y del Caribe de Bioética de la UNESCO, vol. II, 2008, p. 345-347

 

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