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Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia

GEICT, etnografia e transição sustentável para o setor energético brasileiro: entrevista com o Dr. Jean Miguel

Atualizado: 3 de mar.



Em 2022 o GEICT completou 10 anos de formação. Para comemorar essa marca, o blog realizou mais uma das entrevistas do projeto GEICT 10 anos. Hoje publicamos a conversa com o professor Dr. Jean Miguel, do Instituto de Geociências da Unicamp. Jean foi um dos membros originais do GEICT e sua tese de doutorado foi a segunda a ser defendida do grupo. Conversamos sobre como o GEICT surgiu, como é voltar a Unicamp, futuras parcerias e também sobre sua atual pesquisa, que versa sobre a transição para sustentabilidade no setor energético brasileiro. 




Fotografia de rosto do professor Jean Miguel. Ele pesquisa transição para a sustentabilidade no setor energético brasileiro.
Prof. Dr. Jean Miguel (IG-UNICAMP)


YAMA CHIODI: Boa tarde, Jean. Primeiramente obrigado pela entrevista. Você hoje é professor aqui no IG, na Unicamp, mas foi uma das pessoas que estavam no GEICT lá no início, na formação. Você pode contar um pouco sobre a formação do grupo e como você foi fazer parte dele?


JEAN MIGUEL: Eu fiz parte do GEICT desde o início, quando o Marko Monteiro montou o grupo. Antes do GEICT,  eu e o Marko participávamos de um grupo chamado Grupo de Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia. Assim que o Marko entrou como professor, ele montou o grupo de estudos interdisciplinares, que é o GEICT. Acredito que tenha sido por volta de 2012. Eu entrei na pós-graduação da Unicamp no DPCT em 2011. Então antes de existir o GEICT eu participava junto com o Marko desse grupo organizado pela professora Léa Velho e pela professora Maria da Conceição. E esse grupo anterior ele tinha um caráter de discutir STS de maneira mais ampla. A gente lia textos de diferentes autores do campo, clássicos e também teorias mais modernas. E o GEICT quando começou foi um grupo formado por orientandos do Marko e alguns outros participantes. Eu não era orientando dele na época, mas da Léa Velho.


E o GEICT no começo ele tinha um forte direcionamento para estudos da teoria ator-rede. Era praticamente um grupo de ator-rede. Estudava-se muito essa ideia de simetrização de humanos e não-humanos, mapeamento de controvérsias, etc. Tinha um forte foco em estudos de controvérsias.

Inclusive o Marko deu uma disciplina que era estudo de controvérsias. Mas o grupo também trazia a coisa da etnografia da ciência, que é algo que o Marko se propôs como uma das linhas de pesquisa que ele ia desenvolver no departamento. Então esse foi o começo do grupo. 


YAMA: E nesse começo, o que você pesquisava? O GEICT já contribuía para sua pesquisa antes que você fosse orientando do Marko?


JEAN: Na época em que eu entrei como participante estava estudando a controvérsia do código florestal, como os pesquisadores especialistas participaram das audiências públicas… algo bastante relacionado a esse tipo de controvérsia pública que envolve ciência. E na ocasião eu me beneficiei bastante das reuniões do grupo por conta dessas rodadas que se faz dos trabalhos dos participantes e como são debatidos pelo grupo. Eu lembro que na ocasião eu aprendi bastante com os debates internos. Aí depois quando eu saí do mestrado eu me tornei orientando do Marko, né? Aí eu participei do grupo de maneira mais direta. Nessa época o grupo já tinha um número mais expressivo de participantes, acredito que já contava com uns 10 participantes fixos. Nesse período eu participei bastante durante todo o doutorado e de certa maneira eu nunca deixei de colaborar. Mesmo quando eu fui pro pós-doc na Unifesp e quando eu fui pra fora do país, eu sempre tive boa colaboração com o grupo. Muitas vezes participando dos workshops, às vezes como debatedor, às vezes como participante mesmo. E colaborando com o Marko em coisas paralelas, como publicações, organização de eventos, etc. 


YAMA: Depois de tantos anos de colaboração com GEICT e participando dos workshops, como é voltar agora como professor do DPCT?


JEAN:


Eu vejo que o grupo cresceu bastante. O GEICT era um grupo que basicamente era de orientandos do Marko e as atividades eram bastante internas. Mas hoje eu vejo que o GEICT tem uma abrangência maior de temáticas.

Você percebe que a etnografia da ciência é uma das temáticas. Uma das linhas. Você tem trabalhos mais diversos, temos mais diversidade de trabalhos, perspectivas de análises também. E isso também é um desafio atual pro grupo, né? Para saber mais ou menos qual o seu métier. Quais são as questões que o grupo discute. Claramente a crise ambiental é um tema bastante presente no grupo, mas também saúde, corporalidade. Vejo com bons olhos a maneira como o grupo vem se desenvolvendo. Trabalhos de grande qualidade acadêmica e temáticas diversas. Eu sou um colaborador de longa data do Marko, né? E também pretendo colaborar com o GEICT de maneira próxima. E, de certa forma, ajudar no esforço articular o GEICT com outras iniciativas do departamento, outras linhas do departamento e possivelmente também enxergar, digamos assim, uma problemática que organize os trabalhos que são mais individuais do grupo. Acho que talvez isso possa ser uma coisa que eu possa ajudar o grupo a desenvolver. 



YAMA: Você foi o coordenador de um dos grupos de trabalho de workshop do GEICT. Mais especificamente, o grupo de pesquisa etnográfica. Você pode falar um pouco sobre essa experiência?


JEAN: Foi uma experiência muito boa. Os/as participantes são pesquisadores e pesquisadoras de alto nível acadêmico. Eu não falo isso da boca pra fora, assim, percebe-se claramente que são pessoas bem preparadas, metodologicamente conscientes daquilo que estão fazendo. Então a experiência no grupo de etnografia foi bastante interessante. Aprendi bastante com as exposições.  O que que a gente fez basicamente: nós partimos questão por questão que havia sido colocada e cada participante foi falando um pouco sobre sua pesquisa e como etnografia trazia ganhos e algumas dificuldades no desenvolver da pesquisa. 


YAMA: E quais foram os principais pontos da discussão?


JEAN: De partida, havia uma pergunta assim… porque etnografia? Porque escolhemos etnografia como metodologia? A etnografia vai permitir que o pesquisador trabalhe problema em múltiplas escalas. Então desde uma controvérsia que se processa num nível mais local, até o seu desdobramento e suas relações com políticas, com estruturas de governança globais. Então a maioria dos trabalhos ali discutia algum tema cujo campo era local, porém a ramificação a partir do mapeamento que a etnografia proporciona, ganhava escalas de contextos regionais e globais. Então eu acredito que o olhar etnográfico tem essa capacidade de ser uma metodologia que você consegue conectar pontos multi-situados. Isso é fundamental, acredito eu, no momento da pesquisa em que a gente lida com fenômenos que ocorrem no mundo digital, nas redes… a maneira como o digital transforma as ações políticas, na organização da própria sociedade.


Então a etnografia permite esse passo metodológico de seguir fenômenos em múltiplas escalas. Mas não somente. A etnografia é uma forma de descrever detalhadamente a maneira processual que os fatos são constituídos e dão embasamento a certas práticas e ações políticas.

Muitos dos trabalhos discutidos no workshop têm a preocupação de entender como disputas que envolvem conhecimento e poder têm seu curso. Portanto, a etnografia é uma perspectiva que realmente contribui como método e perspectiva de análise. 


YAMA: Quais os próximos passos no DPCT?


JEAN: No meu planejamento pessoal no departamento, eu estou trazendo três linhas de pesquisa junto ao LABMEM - Laboratório de Estudos sobre Mudança Tecnológica, Energia e Meio Ambiente, que é o laboratório que divide o espaço físico com o GEICT. Atualmente ele é coordenado pelo prof. André Furtado e pelo Prof. Aleix Altmiras, dois professores do DPCT. Os temas deste laboratório dialogam muito com o GEICT. Tem três linhas de pesquisa que vão ajudar nessa conversa: A primeira é a transição sociotécnica para sustentabilidade. Eu, Altmirasf e Furtado vamos dividir uma disciplina sobre esse tema, a CT148, mais especificamente, trata sobre transição energética. É um tema que está na ordem dia, inclusive em políticas nacionais, se você for pensar no plano de transição ecológica do governo atual. Envolve setores estratégicos e a pesquisa da STS, da economia, das políticas públicas. Outra linha é uma que eu já venho trabalhando desde o doutorado que é a antropologia das infraestruturas. Essa é uma linha que apesar do GEICT ter trabalhos que dialogam com esse tema, eu não vejo claramente essa temática como uma temática do grupo. Já a terceira linha é algo que o GEICT trabalha bastante e que é mais tradicional aos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, que são interfaces entre ciência e política. Meu foco, contudo, seria na interface de ciência e política climática, me orientando mais para a governança climática e energética. Eu tenho dois temas fundamentais: mudanças climáticas e energia, digamos assim. Então eu acredito que tem um diálogo muito interessante nessa temática que eu coloquei aqui que vão de alguma maneira conversar com os trabalhos do GEICT, colaborar nos próximos eventos, assim que esse laboratório que eu estou entrando agora for agregando novos estudantes. 


YAMA: Além das conversas entre o GEICT e o LABMEM, já existem projetos em vista de colaboração?


JEAN: Sim, há um conjunto de trabalhos e um planejamento que eu pretendo ter em conjunto com o GEICT, tanto da parte do Marko como da minha parte. O Marko tem em vista a submissão de um projeto temático que envolve o Amazon FACE. É preciso fôlego, um projeto temático, e pessoas para trabalhar nele, de diferentes estágios da carreira acadêmica. Desde a IC, a pós-graduação e também outros professores. Então eu já conversei com o Marko que eu estou disposto a trabalhar nesse projeto temático. O outro ponto são as orientações, né? O Marko sempre me chama pra participar de bancas de membros do GEICT, é algo mais pontual mas é bastante importante, porque eu conheço o trabalho dos estudantes e posso ajudar a orientar ou ajudar no que for preciso. Provavelmente vou participar de algumas reuniões presenciais também. 



YAMA: Agora eu gostaria de conversar sobre a sua pesquisa atual. Já atuando junto ao LABMEM, quais são seus interesses atuais?


JEAN: Bom, a minha pesquisa atualmente pode ser dividida em três eixos que se relacionam - que são justamente os que eu citei antes. Interfaces entre ciência e política, antropologia das infraestruturas e transição sociotécnica para a sustentabilidade. Esses três eixos eles se coordenam no que eu pesquiso atualmente porque eu tenho pesquisado a transição sociotécnica do setor elétrico brasileiro.


Qual é o problema aí? O setor elétrico brasileiro é uma mega infraestrutura hidro-intensiva. 60% da nossa energia elétrica é baseada em grandes plantas de hidrelétricas, certo? E hoje nós estamos num contexto global de descarbonização, de restrição dos regimes hídricos pelas mudanças climáticas e a ocorrência de secas, que colocam em xeque os sistemas elétricos dos mundos inteiro. Eu tenho estudado o caso brasileiro. Como a transição do sistema elétrico tem ocorrido no Brasil.

Então, de certa maneira, uma forma de eu abordar esse tema é pensando como certas infraestruturas, certas condições dessas infraestruturas condicionam uma forma de governança, e como essa governança muitas vezes organizadas em lobbies, grupos de interesse e grupos politicamente organizados travam a modificação das infraestruturas. Do ponto de vista teórico dos STS, vejo que a linha de discussão aborda como infraestruturas e materialidades coproduzem formas de governança, estabelecem certas hierarquias, categorias e padrões que criam certo tipos de condicionamento aos processos socioambientais de transição para a sustentabilidade. Essa discussão deriva de meus interesses de pesquisa anteriores que tratavam da maneira que as interfaces entre ciência e política climática foram construídas no Brasil. Meu objetivo atual é dar continuidade a essa discussão de maneira mais ampliada para o contexto das políticas de transição para a sustentabilidade e seus fundamentos factuais, técnicos e infraestruturais.  


YAMA: Como a atual agenda global para as mudanças do clima impactam a tomada de decisão sobre o setor elétrico brasileiro?



JEAN:


O impacto da mudança climática pressiona o setor elétrico brasileiro para se tornar menos hidro-intensivo. Porque se você não tem água você não gera energia hidrelétrica, então é preciso encontrar outros caminhos para a sustentabilidade e para a segurança do setor energético brasileiro que não seja a contratação de térmicas. Porque o objetivo é descarbonizar os sistemas.

Então as mudanças climáticas e o conhecimento climático fazem parte dessa pesquisa. No caso brasileiro, o nexo clima e energia é central. Nos últimos anos tivemos sérias crises hídricas no país que abalaram a operação elétrica nacional. Não é possível ter uma política energética de transição separada da política climática. Então na minha visão, a interface entre ciência e política das mudanças climáticas tem que incorporar necessariamente esse debate sobre transição para a sustentabilidade. Porque se nós estamos num novo regime climático, se não existe mais aquela incerteza climática fundamental, é preciso pensar em formas de transição.  Pensar os problemas setoriais e os problemas coletivos, sociais, dos grupos vulneráveis, e pensar em formas de produzir ciência e política, coproduzir isso de maneira que a gente comece uma ação de transição para encarar esse problema. 



YAMA: Você mencionou algumas vezes que sua pesquisa atual traz questões que vieram da sua pesquisa de doutorado, que foi feita no GEICT. Que questões são essas? 


JEAN: O tema da transição para sustentabilidade do setor elétrico brasileiro une um ferramental teórico e também uma pesquisa empírica que vai, digamos assim, transladar uma série de interesses anteriores de pesquisa que derivam do meu doutorado. O doutorado foi onde eu trabalhei com essa ideia que as infraestruturas exercem uma forma de política tecnológica, uma geopolítica infraestrutural, e governamentalidade ambiental, como eu chamei no meu doutorado. Portanto se nós vamos pensar num tipo e governança de uma infraestrutura, seja ela do conhecimento climático ou do setor elétrico, nós temos que pensar essa governança coordenada com as condições materiais das infraestruturas. Os agenciamentos possíveis das infraestruturas e os espaços que elas criam para participação pública, para uma abertura, ou para a clausura degoverno de determinados grupos. Eu acho que de certa forma é estratégico trabalhar com esse tema no DPCT, por conta dos diferentes temas congregados. Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, mudanças climáticas, o tema da energia que é muito caro para outros professores e professoras do departamento. Eu vejo o tema da transição para sustentabilidade como agregador e um tema que deriva da minha pós-graduação no DPCT e da minha pesquisa no GEICT. 

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Grupo de Estudos Interdisciplinares em Ciência e Tecnologia, 2023. 

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